🧪 Química e Ciência

Peidos e adoçantes: por que 'sem açúcar' pode significar mais gases

Chicletes sem açúcar, balas dietéticas e petiscos 'sem adição de açúcar' costumam trazer um efeito colateral não anunciado: flatulência intensa. Os suspeitos habituais são os polióis, uma família de adoçantes que o intestino tem dificuldade em absorver.

O que são os polióis?

Os adoçantes de baixa caloria pertencem a várias famílias químicas, mas os mais famosos por causar gases são os álcoois de açúcar, também chamados polióis. Apesar do nome, não contêm nem açúcar comum nem álcool embriagante. Exemplos frequentes são sorbitol, xilitol, manitol, maltitol, isomalte, lactitol e eritritol. Os fabricantes os adoram porque têm sabor doce, acrescentam volume e textura, não provocam cárie e fornecem menos calorias do que o açúcar de mesa. São encontrados em chicletes sem açúcar, pastilhas de menta, chocolate para diabéticos, barras de proteína, xaropes para tosse e sorvetes 'sem adição de açúcar'. A armadilha está na sua química: suas moléculas são apenas parcialmente absorvidas pelo intestino delgado humano. O que não é absorvido segue para o intestino grosso, onde se torna alimento para as bactérias residentes e matéria-prima para uma quantidade surpreendente de gás intestinal.

Por que o intestino os transforma em gás

O intestino delgado absorve rapidamente os açúcares comuns, mas os polióis não têm um sistema de transporte próprio para atravessar a parede intestinal. São absorvidos de forma lenta e incompleta, de modo que grande parte chega intacta ao cólon. Ali, trilhões de bactérias os recebem como um banquete inesperado e os fermentam para obter energia. Essa fermentação libera hidrogênio, dióxido de carbono e, em muitas pessoas, metano: justamente os gases que incham o intestino e acabam sendo expelidos como flatulência. Duas coisas pioram o efeito. Primeiro, os polióis não absorvidos são osmoticamente ativos, puxam água para o intestino e costumam causar inchaço, cólicas e diarreia. Segundo, quanto mais se consome, mais substrato as bactérias recebem, de modo que os sintomas aumentam com a dose. É por isso que alguns chicletes sem açúcar a mais podem render uma tarde memorável.

Nem todos os adoçantes são iguais

Os polióis diferem enormemente na quantidade de gás que geram, porque cada um é absorvido em grau distinto. O eritritol é o mais suave: sua pequena molécula é absorvida no intestino delgado e excretada na urina, de modo que pouco chega ao cólon e raramente causa gases importantes em doses normais. Sorbitol e manitol ficam no extremo problemático, são mal absorvidos e notoriamente laxantes, razão pela qual as autoridades de muitos países exigem um aviso de que o consumo excessivo pode ter efeito laxante. O maltitol, comum no chocolate sem açúcar, fica no meio, mas é um culpado frequente porque o chocolate é fácil de comer em excesso. Em contraste, os adoçantes de alta intensidade como aspartame, sucralose, sacarina e estévia são usados em quantidades minúsculas e não fermentam da mesma forma, causando em geral muito menos flatulência do que os volumosos polióis.

Como aproveitar os doces sem a tempestade

Você não precisa abrir mão dos doces sem açúcar, mas um pouco de estratégia ajuda. Comece lendo os rótulos: se sorbitol, maltitol, manitol ou isomalte aparecerem no topo da lista de ingredientes, espere gases se exagerar. A maioria das pessoas tolera uma pequena quantidade, um ou dois chicletes, sem problemas, e o intestino pode se adaptar em parte ao longo de dias a semanas de exposição regular, enquanto a microbiota se ajusta. Se você é sensível, prefira produtos adoçados com eritritol ou adoçantes de alta intensidade, muito menos fermentáveis. Distribuir o consumo ao longo do dia em vez de comer um pacote inteiro de uma vez mantém cada dose abaixo do seu limite pessoal. E se um alimento anuncia com orgulho que é 'sem açúcar' e mesmo assim tem sabor convincentemente doce e mastigável, encare isso como um aviso gentil ao seu sistema digestivo.

Você sabia?

Curiosidade

Em 2008, médicos relataram casos de perda de peso drástica e cólicas em pacientes que mascavam diariamente grandes quantidades de chiclete com sorbitol; uma pessoa ingeria, sem saber, uma dose quase laxante apenas do chiclete.

Fontes

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