Alfa-galactosidase e gases: como o Beano domestica o feijão
A alfa-galactosidase é uma enzima digestiva vendida como o suplemento Beano, que promete conter os gases e o inchaço que o feijão, as lentilhas e o repolho podem provocar. Mas como é que uma única enzima desarma as flatulências escondidas numa tigela de chili?
O problema dos oligossacarídeos
O feijão e muitos legumes são ricos numa família de açúcares complexos, os galacto-oligossacarídeos, sobretudo rafinose, estaquiose e verbascose. Essas moléculas são formadas por unidades de galactose unidas por ligações glicosídicas alfa-1,6. O intestino delgado humano simplesmente não produz uma enzima capaz de quebrar justamente essa ligação, de modo que esses açúcares o atravessam sem serem digeridos. Quando chegam ao intestino grosso, as bactérias intestinais que ali vivem os tratam como um banquete e os fermentam com entusiasmo. Essa fermentação libera hidrogênio, dióxido de carbono e, em algumas pessoas, metano: exatamente os gases que incham o cólon e acabam escapando como flatulências. Como os açúcares chegam ao cólon praticamente intactos, a quantidade de gás pode ser considerável, e é precisamente por isso que um prato de feijão conquistou sua fama musical em tantas culturas e ao longo de tantos séculos.
Como a enzima atua
A alfa-galactosidase fornece a ferramenta que falta. A enzima comercial é obtida de um fungo de grau alimentar, o Aspergillus niger, e faz exatamente o que o intestino humano não consegue: corta as ligações alfa-1,6 que unem a galactose à estrutura do oligossacarídeo. Tomada com a primeira garfada da refeição, a enzima atua no intestino delgado, dividindo rafinose e estaquiose em açúcares simples como galactose, glicose e sacarose. Esses açúcares simples são então absorvidos normalmente pela parede intestinal antes mesmo de chegarem ao cólon. Como resta muito pouco material fermentável para as bactérias mais adiante, produz-se muito menos gás. A abordagem é preventiva, não curativa: a enzima precisa estar presente ao mesmo tempo que os açúcares problemáticos, e é por isso que o momento da ingestão em relação à refeição importa tanto.
Evidências e eficácia
Os estudos controlados sobre a alfa-galactosidase geralmente relatam uma queda mensurável tanto do volume de hidrogênio produzido quanto do número de episódios de flatulência após refeições ricas em leguminosas, embora a intensidade do efeito varie muito de pessoa para pessoa e conforme a dose tomada. A enzima é específica: age apenas sobre os galacto-oligossacarídeos do feijão, da soja e das crucíferas. Nada faz contra os gases causados pela intolerância à lactose, por fibras fermentáveis como a inulina ou pelo ar engolido, portanto não é um remédio universal contra gases. A eficácia também depende de usar unidades suficientes de enzima para a quantidade de leguminosas consumida e de tomá-la antes ou logo no início da refeição, e não depois, quando a fermentação no intestino já começou.
Uso prático, limites e segurança
A alfa-galactosidase vem em gotas ou comprimidos tomados logo antes de comer e, para a maioria das pessoas, é bem tolerada e sem efeitos colaterais significativos. Ainda assim, vale conhecer algumas ressalvas. A enzima é sensível ao calor, por isso não pode ser cozida com os alimentos nem misturada em sopa quente sem ser destruída. Como entre os produtos da degradação está a galactose, pessoas com galactosemia, uma rara incapacidade hereditária de processar galactose, devem evitá-la. Ela também não reduz o valor nutritivo da refeição; se é que faz algo, libera açúcares para a absorção. Para quem prefere uma abordagem alimentar, deixar de molho e cozinhar bem o feijão seco, descartar a água do molho e introduzir as leguminosas na dieta aos poucos ajudam o intestino a se adaptar e podem reduzir os gases com o tempo, sem nenhum suplemento.
Você sabia?
- A enzima do Beano é produzida pelo Aspergillus niger, o mesmo fungo de grau alimentar usado para fabricar ácido cítrico.
- A alfa-galactosidase precisa agir no intestino delgado, chegando aos açúcares antes das bactérias intestinais, antes que a fermentação possa começar.
- A enzima é inútil contra gases de laticínios, fibras ou ar engolido, porque só decompõe galacto-oligossacarídeos.
- A deficiência de uma alfa-galactosidase diferente dentro das células humanas causa a doença de Fabry, um distúrbio hereditário sem relação com isso.
Curiosidade
A enzima é tão sensível ao calor que polvilhá-la sobre uma tigela de sopa fumegante a destrói no ato. Para funcionar, precisa ser engolida com a primeira garfada da refeição, nunca cozida junto com a comida.
Fontes
- National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK) (2021). Symptoms & Causes of Gas in the Digestive Tract. U.S. Department of Health and Human Services.
- Roach, M. (2013). Gulp: Adventures on the Alimentary Canal. W. W. Norton & Company.
- Gates, S. (2018). Fartology: The Extraordinary Science Behind the Humble Fart. Quadrille Publishing.
- Dawson, J. (1999). Who Cut the Cheese? A Cultural History of the Fart. Ten Speed Press.
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