As aranhas peidam? Digestão em artrópodes
As aranhas comem insetos, têm intestinos e realizam digestão extra-oral. Produzem também gás intestinal? A resposta exige compreender como os artrópodes digerem, que micróbios vivem nos seus intestinos e até que ponto o conceito humano de 'peido' é aplicável a animais radicalmente diferentes. A entomologia e a biologia de artrópodes oferecem respostas que são tanto cientificamente precisas como surpreendentes.
Digestão extra-oral: como as aranhas comem
As aranhas são carnívoras com um sistema digestivo radicalmente diferente do dos vertebrados. Praticam a digestão extra-oral: injetam enzimas digestivas na presa (através do veneno ou por secreções), pré-liquefazem o tecido da presa e depois aspiram o caldo nutritivo resultante. O intestino da aranha recebe principalmente líquidos, não sólidos. Esta digestão líquida tem consequências importantes para a produção de gás. A fermentação bacteriana — principal fonte de gás em mamíferos — requer carboidratos fermentáveis. As aranhas comem principalmente proteínas e gorduras das suas presas, com muito poucos carboidratos. Isto significa que a base bioquímica principal para a produção de gás fermentativo é muito mais limitada do que nos mamíferos herbívoros.
O microbioma das aranhas: micróbios no intestino do caçador
As aranhas têm sim micróbios intestinais, embora o microbioma seja muito menos diverso do que o dos mamíferos. Os estudos de metagenómica de aranhas (principalmente aranhas orb-weaver e tarântulas) mostram comunidades bacterianas no intestino médio, dominadas por bactérias dos géneros Enterobacteriaceae e Lactobacillales. Estas bactérias ajudam a decompor componentes proteicos das presas. O gás produzido por estas bactérias é principalmente CO₂ e pequenas quantidades de H₂S — não metano em quantidades significativas, porque as dietas altamente proteicas não favorecem a metanogénese. A questão de se as aranhas 'soltam pum' no sentido de libertar gás anal depende de se o seu sistema digestivo produz gás suficiente para requerer expulsão. A investigação direta sobre isto é escassa — é um nicho muito específico da biologia.
Insetos e artrópodes: uma perspetiva mais ampla
Para compreender os gases em aranhas, o contexto dos artrópodes em geral é útil. As térmitas são os artrópodes mais estudados em termos de gases — produzem quantidades ecologicamente significativas de metano graças aos seus micróbios intestinais especializados na decomposição de celulose. As baratas também produzem metano mensurável. Os besouros têm micróbios intestinais fermentadores e produzem gás. As aranhas, como predadoras carnívoras com digestão extra-oral, estão no extremo oposto do espectro: mínima fermentação de carboidratos, mínima produção de metano. No entanto, a produção de algum CO₂ e gás de decomposição proteica é bioquimicamente inevitável. Um biólogo que estudasse diretamente as expulsões gasosas de aranhas provavelmente encontraria evidência de alguma produção de gás, mas em escalas muito menores do que em insetos herbívoros ou em mamíferos.
A pergunta impossível: como se estuda o peido de uma aranha?
A investigação direta sobre flatulência em aranhas enfrenta obstáculos metodológicos consideráveis. O volume de gás produzido seria minúsculo — uma aranha de jardim típica (Araneus diadematus) pesa menos de 1 grama. As técnicas padrão para medir o gás intestinal (cromatografia gasosa, análise de gases respiratórios) requerem amostras significativamente maiores. Não existe literatura científica revisada por pares sobre 'flatulência em aranhas' como tema específico. O que existe são estudos sobre microbiomas de aranhas e sobre fisiologia digestiva de artrópodes, que permitem inferir que alguma produção de gás ocorre. A resposta mais honesta da ciência: sim, é bioquimicamente provável que as aranhas produzam pequenas quantidades de gás intestinal, mas se isto se manifesta como expulsão anal detetável é desconhecido e incerto. A aranha que silenciosamente te observa do tecto poderia, em teoria, estar a libertar gás. Só que muito, muito pouco.
Sabia que?
- As aranhas praticam digestão extra-oral: injetam enzimas na presa, pré-liquefazem-na e aspiram o resultado — recebem principalmente líquidos, não sólidos.
- As térmitas são os artrópodes que mais metano produzem — os seus micróbios intestinais especializados em celulose geram quantidades ecologicamente significativas de gás.
- O microbioma das aranhas é muito menos diverso do que o dos mamíferos, com dominância de bactérias proteolíticas, não fermentadoras de carboidratos.
- Uma aranha típica de jardim pesa menos de 1 grama — o volume de gás produzido seria demasiado pequeno para ser medido com técnicas padrão.
Curiosidade
Em 2018, o biólogo e divulgador científico Jeremiah Cohick publicou no Twitter que as aranhas 'definitivamente soltam pum', baseando-se no facto de terem micróbios intestinais e digestão. O fio tornou-se viral e gerou cobertura em meios como a National Geographic e o The Guardian — que consultaram biólogos de aranhas reais. A resposta consensual: 'provavelmente sim, mas ninguém o estudou diretamente'. O tema inspirou pelo menos uma tentativa de financiamento de investigação por crowdfunding. A ciência por vezes começa por um tweet sobre gases de aranha.
Fontes
- Peretti, A.V. & Aisenberg, A. (2015). Cryptic Female Choice in Arthropods. Springer (Chapter on spider digestion).
- Engel, P. et al. (2016). The gut microbiota of insects. Annual Review of Entomology.
- Schmitt, T. et al. (2014). Chemical ecology of spider silk and venom. Journal of Chemical Ecology.