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Peixes Que Peidam

A descoberta de que os arenques se comunicam usando sua própria flatulência é uma das descobertas mais inesperadas da biologia marinha. Embora os peixes careçam da complexidade do microbioma intestinal que impulsiona a produção de gás em mamíferos, várias espécies desenvolveram usos fascinantes para o gás — desde sinalização acústica deliberada até controle de flutuabilidade. O oceano é, acabou-se descobrindo, um pouco mais flatulento do que se supunha anteriormente.

A Descoberta da Comunicação dos Arenques

Em 2003, os biólogos marinhos Ben Wilson e Robert Batty da Scottish Association for Marine Science, juntamente com Lawrence Dill da Simon Fraser University, publicaram um estudo histórico no periódico Proceedings of the Royal Society B. Eles descobriram que os arenques do Pacífico e do Atlântico produzem rajadas rápidas de bolhas de sua região anal, que eles denominaram 'Fast Repetitive Ticks' ou FRTs — um acrônimo cuja seleção foi quase certamente deliberada. Esses sons são produzidos liberando gás da bexiga natatória pelo ducto anal e são distintos do gás digestivo dos arenques. Crucialmente, a produção de FRT aumenta na presença de outros arenques e diminui quando sozinhos, sugerindo fortemente uma função de comunicação social. Os pesquisadores levantaram a hipótese de que os FRTs permitem que os arenques mantenham a coesão do cardume na escuridão, quando os sinais visuais são indisponíveis.

A Bexiga Natatória: Um Órgão Multifuncional

A maioria dos peixes ósseos possui uma bexiga natatória — um órgão interno cheio de gás usado principalmente para controle de flutuabilidade. A bexiga natatória permite que os peixes mantenham flutuabilidade neutra em várias profundidades sem esforço de natação constante, ajustando a quantidade de gás que contém. Em muitas espécies, a bexiga natatória também desempenha papéis na produção e detecção de som. Nos arenques especificamente, a bexiga natatória está conectada tanto ao ouvido interno quanto ao ducto anal, criando um sistema acústico e de flutuabilidade notavelmente integrado. O gás liberado pelo ducto anal produz os sons FRT distintos; o gás absorvido ou secretado pela parede da bexiga natatória ajusta a flutuabilidade. Esta função dupla em um sistema de órgão representa um elegante exemplo de economia evolutiva.

Tubarões, Peixes-Boi e Outras Criaturas Gasosas

Os tubarões não possuem bexiga natatória e, em vez disso, gerenciam a flutuabilidade em parte por meio de um fígado grande e cheio de óleo (o esqualeno é menos denso do que a água) e em parte engolindo ar na superfície, que algumas espécies armazenam temporariamente em seus estômagos. Algumas espécies foram observadas liberando esse ar armazenado de formas funcionalmente equivalentes a arrotos ou peidos. Os peixes-boi, sendo mamíferos com tratos intestinais funcionais, produzem gás intestinal substancial como subproduto de sua dieta fibrosa à base de plantas. A pesquisa sobre os peixes-boi das Índias Ocidentais mostrou que eles regulam sua flutuabilidade em parte retendo ou liberando gás intestinal — efetivamente usando a flatulência como mecanismo de controle de profundidade. Um peixe-boi com dificuldades digestivas pode se tornar involuntariamente mais flutuante e ter dificuldade em mergulhar.

A Ciência e o Legado do Estudo FRT dos Arenques

O estudo FRT dos arenques ganhou o Prêmio Ig Nobel de Biologia em 2004, concedido anualmente por pesquisas que 'fazem as pessoas rir, depois pensar'. O Ig Nobel às vezes é dispensado como puramente cômico, mas a pesquisa subjacente foi revisada por pares, metodologicamente sólida e publicada em um periódico de alto impacto. Foi subsequentemente citada em mais de 150 artigos acadêmicos sobre acústica de peixes, comunicação subaquática e comportamento de cardumes. A descoberta do FRT também tem implicações práticas para o monitoramento acústico subaquático: submarinos e navios de pesquisa que dependem de sonar aprenderam que grandes cardumes de arenques podem produzir assinaturas acústicas detectáveis, o que historicamente levou a leituras falsas em operações navais. A Marinha Sueca aparentemente investigou sons subaquáticos inexplicáveis por anos antes de a explicação dos arenques emergir.

Você sabia?

Curiosidade

Os pesquisadores que descobriram os FRTs dos arenques nomearam seu fenômeno acústico com o acrônimo deliberadamente. Quando questionado sobre isso em uma entrevista de acompanhamento, o autor principal Ben Wilson confirmou que a nomeação foi intencional e que ajudou o artigo a chamar atenção — um raro caso de trocadilho científico de flatulência avançando o campo.

Fontes

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