Bebidas gaseificadas e gases: a verdade efervescente sobre inchaço e flatulência
Aquela efervescência agradável dos refrigerantes, da água com gás e da cerveja é puro dióxido de carbono — e, assim que você o engole, o seu sistema digestivo precisa lidar com cada bolha. Esta é a ciência de para onde ele vai.
De onde vêm as bolhas
As bebidas gaseificadas são feitas forçando dióxido de carbono (CO2) para dentro do líquido sob pressão. Pela lei de Henry, a quantidade de gás dissolvido é proporcional à pressão sobre o líquido, por isso uma lata fechada contém muito mais CO2 do que um copo aberto. Uma pequena fração do gás reage com a água e forma ácido carbônico, aquele leve sabor ácido que acompanha o picar das bolhas que estouram. Ao abrir, a pressão cai, o líquido fica supersaturado e o CO2 escapa no conhecido jato de bolhas. Uma lata típica de 330 mililitros contém cerca de dois a três gramas de CO2 dissolvido — várias centenas de mililitros de gás à temperatura do corpo. Todo esse gás entra na boca e no estômago, e o corpo precisa direcioná-lo para algum lugar: para cima como arroto ou para baixo pelo intestino.
Ar engolido versus gás liberado
A maior parte do gás de uma bebida com gás nunca chega ao intestino. Quando o líquido aquece no estômago, o CO2 dissolvido sai rapidamente da solução e se acumula como uma bolha no topo do estômago, que o corpo costuma liberar como arroto, um processo chamado eructação. É o mesmo mecanismo da aerofagia, a deglutição de ar, só que aqui o gás já chega dissolvido. No entanto, beber depressa, usar canudo ou engolir enquanto fala acrescenta mais ar, e parte do CO2 permanece dissolvido tempo suficiente para passar ao intestino delgado. Ali é parcialmente absorvido pelo sangue e exalado pelos pulmões, mas uma fração segue até o cólon. Junto com o gás produzido pelas bactérias intestinais, isso contribui para inchaço, pressão abdominal e, por fim, flatulência.
Por que alguns incham mais
As pessoas reagem de formas muito diferentes à gaseificação. Quem tem intestino sensível, como na síndrome do intestino irritável, muitas vezes percebe volumes normais de gás como inchaço doloroso, mesmo sem produzir mais do que os outros. Os demais ingredientes também importam. Muitos refrigerantes são adoçados com xarope de milho ou contêm frutose, um açúcar mal absorvido em grandes quantidades que alimenta as bactérias produtoras de gás. As versões sem açúcar costumam usar poliálcoois como o sorbitol, que fermenta no cólon e é famoso por causar gases e fezes moles. O frio retarda levemente o esvaziamento gástrico, e beber de estômago vazio acelera a chegada do gás ao intestino. As bebidas alcoólicas gaseificadas acrescentam outra camada, pois o álcool relaxa o esfíncter esofágico inferior e pode perturbar a motilidade intestinal.
Como controlar as bolhas
Você não precisa abrir mão das bebidas com gás para ficar confortável. Beber devagar e sem canudo reduz o ar engolido, e deixar um copo recém-servido descansar permite que algum CO2 escape antes de chegar ao estômago. Deixar a bebida perder parte do gás, ou mexê-la, remove uma parcela significativa. Escolher bebidas adoçadas com açúcar comum em vez de sorbitol ou muita frutose pode poupar intestinos sensíveis. Se o inchaço persistir, trocar o refrigerante por água sem gás durante parte do dia é a solução mais simples. Um movimento leve após a refeição ajuda o gás a circular e sair naturalmente em vez de se acumular. Para a maioria, a gaseificação causa um inchaço inofensivo e passageiro, mas desconforto grave e frequente, dor ou mudança no hábito intestinal merecem conversa com um médico.
Você sabia?
- Uma única lata de refrigerante pode liberar várias centenas de mililitros de CO2 enquanto aquece no estômago.
- A maior parte do dióxido de carbono de uma bebida com gás sai do corpo como arroto, não como pum.
- Poliálcoois como o sorbitol das bebidas diet fermentam no cólon e podem causar mais gás do que as próprias bolhas.
- O sabor ácido dos refrigerantes vem em parte do ácido carbônico, formado quando o CO2 reage com a água.
Curiosidade
Os astronautas não conseguem arrotar com facilidade em microgravidade, porque sem gravidade o gás não se separa do líquido no estômago — por isso bebidas gaseificadas são praticamente proibidas no espaço para evitar um desagradável 'arroto úmido.'
Fontes
- Cuomo R. et al., Carbonated beverages and gastrointestinal system, World Journal of Gastroenterology, 2009
- Suarez F., Levitt M.D., An understanding of excessive intestinal gas, Current Gastroenterology Reports, 2000
- Pohl D. et al., Carbon dioxide and the gut, Neurogastroenterology & Motility, 2013